ESTÓRIAS DA LEITARIA

Todas as casas guardam lembranças. A Leitaria da Quinta do Paço é disso um bom exemplo. Leia aqui as narrativas de hoje e de outras épocas com um denominador comum: sabores inconfundíveis que fazem destas recordações doces histórias.

MUDAR DE VIDA

Hugo Pereira

No ano de 2009 começou uma nova era da minha vida. A entrada no mundo de trabalho obrigou à mudança de cidade. Troquei Lisboa pelo Porto.
Durante esse mesmo ano, conheci uma rapariga incrivelmente bonita. Começou como colega de trabalho, foi minha guia da cidade. Cada vez passava mais tempo com ela, cada vez mais me convencia que estava a ficar apaixonado.
Tinha que revelar tudo o que sentia por ela. Sendo ambos gulosos marcamos encontro na Leitaria da Quinta do Paço!
Servidos com um bom chá e um éclair de chocolate negro, ela ficou maravilhada. Nessa mesma noite confessei-lhe os meus sentimentos. Hoje as visitas à Leitaria continuam e estamos com casamento marcado.

UMA HISTÓRIA COM MIL FOLHAS

Celeste Dias

Estávamos no ano de 96 e eu estava grávida esperando um irrequieto rapazinho. Como muitas vezes acontece às mulheres nesse período de vida tive subitamente um desejo incontrolável: saborear um pastel mil folhas.
Estando próxima da minha Leitaria de infância entrei e deliciei-me com o saboroso lanche de dois mil folhas.
Passaram-se 6 anos, passeando pela Baixa do Porto com o meu filho pela mão, decidi iniciá-lo no ritual do lanche na Leitaria da Quinta do Paço, provando os famosos éclaires de chantilly.
Chegados ao balcão os seus pequeninos olhos brilharam e disse: mamã que bolas são aquelas que parecem um livro com creme branco? Eram os deliciosos mil folhas que nunca mais voltara a comer. Sorri, pensei que a vida tem momentos deliciosos e sentamo-nos os dois saboreando os mil folhas.

DE GERAÇÃO EM GERAÇÃO

Maria Leonor Neto

Era criança e lembro-me de ir, pela mão da minha mãe, lanchar leite, pão com a deliciosa manteiga e os éclairs da Leitaria da Quinta do Paço.
Depois, mais tarde namorava por lá. Passados anos ia com os meus filhos e agora vou com os meus netos.

DOCES RECORDAÇÕES

Manuel Joaquim Paços Leitão

Nasci e vivi em Valadares, Vila Nova de Gaia, e conheci a Leitaria Da Quinta do Paço tinha menos de 10 anos.
Quando a minha mãe ou a minha avó decidiam ir ao Porto, o que era um acontecimento, íamos lanchar à Quinta do Paço.
É bom recordar quando dentro de um mês conto completar 77 anos.

A origem

Adelino Sousa

A Leitaria da quinta do paço era na freguesia de Eiriz, Paços de Ferreira, local onde era recolhido o leite, fabricado o bom queijo, iogurtes, manteiga e derivados que depois eram levados para a comercialização. 

Baú das recordações

Filomena Sobral

Os anos passaram ... de menina de 18 anos que passeava sonhadora pelas ruas do Porto, dando o braço ao pai, fica esta avó octogenária que sentada, saboreia mais um delicioso éclair. Abri o baú das recordações ... esta aroma tão familiar ... voltar à confeitaria quinta do paço ao fim de tantos anos. Era aqui que terminavam as nossas tarde de sábado. Sentados conversando. Foi aqui que conheci o António, amor à primeira vista prolongado ao longo dos anos. Por instantes voltei a ser menina e moça, enamorada e feliz, sentada nesta esplanada e saboreando a vida. 

Lanchar na Leitaria

Manuel Joaquim Paços Leitão

Conheci a Leitaria da quinta do Paço tinha menos de 10 anos.

Nasci e vivi em Valadares (Vila nova de Gaia).

Quando a minha Mãe e /ou a minha Avó decidiam ir ao Porto, o que era um acontecimento, depois de irem à casa europa e ... íamos lanchar à Quinta do Paço.

Mais tarde, já adolescente, ia lá comprar para levar para casa em Valadares alguns doces.

É bom recordar ... quando dentro de pouco mais de um mês conto completar 77 anos.

 

Confidentes

Maria Rosa Sá

Foi nesta confeitaria que partilhei muitos peuenos almoços e lanches com a minha saudosa amiga, então filha dos primeiros donos - a minha querida Clotilde amiga de Liceu desde o 1º ano até ao 7º no antigo Liceu Carolina Michaelis, agora Ramada Alta.

Confidenciávamos as histórias de amores de adolescência e por coincidências rapazes que vieram a frequentar a Faculdade que ainda existe na Praça dos leões e antiga Escola Médica. Porém a sorte não nos sorriu. O amor da Clotilde traiu-a e o meu deixou-me ao fim de 5 anos em troca por rapariga saloia, mas rica e com a ameaça da mãe que por sinal tinha o meu nome (não lhe daria roupas decentes para se apresentar bem vestido na faculdade). Houve uma proposta da parte dele, ''vamos deixar, mas esperas por mim''. Não, nunca me deixaria iludir com falsas promessas. Choramos as duas baba e ranho, mas a minha resposta foi a seguinte: ''segue a tua vida que eu sigo a minha e o que for será''. 

Acabei o meu curso, a Clotilde e eu continuamos confidentes. O dela deve ter-se arrependido, o meu também se arrependeu, mas chegaram tarde e ''Inês era Morta'' a guerra do Ultramar trouxe sequelas ao meu ex. e aí então a mãezinha já dizia que eu era a mulher ideal para o filho, tive pena, mas já tinha um lindo marido, inteligente e bom chefe de família.  

Enfim haveria muito para dizer. Tenho hoje 74 anos e tudo começou nesta confeitaria aos 10 anos. As histórias de amor só aos 17 e chegou. Desejo do fundo do coração para que esta Casa continue a ser aquelo que sempre foi e que sempre nos habituou.

Sonhos de menino

Paulo M. Rocha

Aquele éclair...

Finais dos anos 70. Uma vez por semana, a minha mãe pagava em mim e lá íamos nós à Praça de Lisboa. Fruta, couve galega, nabiças e às vezes, uma dúzia de ovos caseiros, faziam as delícias de quem sonhava com aquele cheiro a terra, aquele sabor das coisas simples, as melhores do mundo. Aquelas bancas atafulhadas, o corrupio de gente, os gritos estridentes das vendedeiras e aquele emaranhado de toldos, estacas, cordas e cordéis, eram um mundo à parte para quem, com 9 anitos, não fazia muitos mais do que ir à escola e jogar à bola no descampado lá da rua. E aquela espingarda de fingir que disparava ''ripinhas de madeira''... como eu suspirava por ela. Como eu a desejava tanto.

Naquele dia, talvez por a querer tanto ou por a minha mãe ''estar para ali virada'', ela fez-me a vontade e senti-me um verdadeiro cowboy do velho oeste. Peguei nela como nunca tinha pegado, pois aquela ia ser minha, só minha e não via a hora de começarem os ''polícias e ladrões'' lá da rua, até que um valente encontrão de um vendedor de cestos, desfez o meu conho de menino. O brinquedo partiu-se e eu chorei como nunca tinha chorado.

Nem o consolo da minha mãe me fez esquecer aquele momento de infelicidade, aquela tristeza de quem teve o mundo nas mãos e o deixou fugir. A minha mãe gostava muito de mim e aquilo não ia ficar assim. 

- Anda. Vamos ali a um sítio. Disse ela. 

Ainda a tentar limpar as lágrimas que quase me afogavam, viemos para trás e entramos numa loja numa praça bem pertinho dali, onde se recorda a figura de um ilustre bombeiro do Porto. Entre outras especialidades, havia um tabuleiro cheio de éclairs com ''creme branco''.

- Dois éclairs, por favor.

- Toma, são completamente diferentes do da Estoril, mas vias ver que ais gostar.

Nunca tinha visto um bolo daqueles, mas era bom. O tal ''creme branco'' dava pelo nome de chantilly e era diferente do que eu estava habituado. Era tão fofo e cremoso que desaparece num ''abrir e fechar de olhos''.

- Olha que a sopa, não comes tu assim ...

Gostava da espingarda que disparava ''ripinhas de madeira'', mas aquele sabor ... Nunca mais me esqueci desse dia. 

- Mãe, quando vamos à ''Quinta do Paço''?

Ana Santiago

Sei que todos os clientes são especiais, para vocês. Mas, eu, gostava de partilhar convosco, que ''cresci'' na Leitaria do Porto.

Quase todas as semanas ia lanchar com a minha mãe. Trazíamos sempre manteiga para casa.

Às vezes, a minha mãe fazia um bolo super especial, que era cobiçado por todos no bairro. A receita, dizia ela que era secreta...

Confessou-me há uns tempos que era uma espécie de pão de ló normalíssimo mas que, com o bolo ainda quente, o picava com um garfo e deitava as natas da Leitaria. Era maravilhoso !

Já casada, a viver em Lisboa, com dois filhos, fiquei muito contente ao saber que iam abrir loja cá. Apesar de termos uma dieta restritiva ao açúcar, vamos lanchar convosco muitas vezes. A nossa filha mais velha, come um mini de frutos vermelhos. Só por ser daí. Chamamos-lhe ''um dia especial'' - ela fica muito triste de os ''especiais'' não terem mini - porque eu não lhe dou um grande, claro. Mas imagino que seja difícil conjuga todos os elementos num éclair pequeno. 

Dito isto: tenho muito carinho por vocês, porque sempre que estou aí com os meus filhos, vejo-me criança, com a minha mãe, no Porto. Parece que alivia as saudades da minha terra e da minha família.

 

Rita Pereira

Há 1001 histórias que eu tenho para contar sobre a Leitaria da Quinta do Paço, pelo menos eu conseguia contar um milhar delas. Vou começar, pelo início e, embora estas não me convolvam, fazem parte de mim. A Leitaria começou por ser a escolha dos meus avós para ir lanchar uma vez por semana, depois de se terem mudado de Lamego para a cidade do Porto. Tudo começou aqui. Foi aqui que começou a histórias dos éclairs e a história da minha família. Depois dos meus avós, a Leitaria passou a ser a escolha da minha mãe, assim como a do meu tio, para o cafezinho a meio da manhã ou lanches tardios. A minha mãe, aluna certinha segundo a própria, ficava pelos lanches tardios de forma conciliar, os estudos com os éclairs. Estou mesmo a falar a sério, não é fácil manter uma rotina de estudos e ainda ir deliciar-se com os éclairs, pois se entrarmos com a intenção de só comer um, a verdade é que saímos de lá com dois na barriga e de consciência pesada por não termos comido o terceiro. Neste caso, sem dúvida alguma que saiu à minha mãe. Ora o meu tio, com a faculdade a ser vizinha da Leitaria, era fácil lá dar um pulinho, nem que fosse durante o decorrer de um aula. Em menos d cinco minutos pedia um éclair e já estava outra vez sentado entre os livros a estudar química orgânica.

Ora, a Leitaria da Quinta do Paço para mim, no papel de neta, é capaz de ter sido dos primeiros sítios onde os meus avós me levaram a lanchar. Confesso que não me recordo, mas a avó cada vez que lá vamos conta-me histórias de quando lá ia em pequenina, sempre de mão dada ao avô, isto numa tentativa de me refrescar a memória. Hoje, um bocadinho mais crescida (e não com tantas falhas de memória), vou à Leitaria sempre a pensar que tenho um éclair de caramelo à minha espera, mas não com o avô, é a parte  que mais me custa, no entanto, a avó faz-me companhia pelos dois. Sentamo-nos e, ainda do lado de fora, insisto na ideia que só vamos tomar um café ou um chá, não podemos continuar a devorar éclairs todas as semanas. Bem, não sei o que acontece, mas de alguma forma, acho que a montra com os éclairs todos alinhadinhos, lá consegue seduzir a avó e, quando dou por mim, já está a dizer ao empregado que são dois éclairs: Queria um normal e um de caramelo, mais dois cafés, mas três quartos por favor!'' Tenho quase a certeza que é a única cliente que pede o café assim... É claro que quando a avó não está disponível em planos de chá das cinco, há sempre as melhores amigas que alinham, sem hesitar ! Fazemos da Leitaria o nosso espaço de cusquice, fazemos isso tantas vezes que quando nos vamos embora vemos sempre alguém que nos lança um olhar comprometido como se fosse sinal que nos conseguiu ouvir. Se não há olhar, é sinal que conseguimos ser discretas. Saímos de lá felizes !

Se um dia os meus filhos me perguntarem o que é a Leitaria da Quinta do Paço para mim, apenas respondo que é onde tudo aconteceu. É onde os bisavós namoravam, onde a avó ia lanchar em intervalos de estudo e onde a mãe ia lanchar com a melhor companhia de sempre: a sua avó ! E não é que tudo isto aconteceu por causa de um éclair ? A verdade é que aconteceu mesmo e, quando for eu a lanchar com os meus filhos na Leitaria, espero que se recordem desse momento, como eu me recordo dos que já lá passei.

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